quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Cartas, cartas, cartas...


Parece redundante dizer que escrever cartas não é comum nos dias de hoje. Afinal, com a infinita tecnologia que nos cerca, é difícil pensar em alguém escrevendo e postando uma carta. Mas, isso existe!

Logo que me vi interessado por esse livro, pensei: Porque uma pessoa escreve cartas? Que sentido a escrita, como prática e costume, tem para essa pessoa? São perguntas intrigantes que, ao longo da leitora, foram respondidas, creio eu.

Cartas de amor aos mortos, de Ava Dellaira é um romance epistolar, ou seja, formado por cartas escritas pela protagonista Laurel para personalidades do mundo pop que já se foram. Estrelas como Judy Garland, Elizabeth Bishop, Kurt Cobain, River Phoenix, Amélia Earhart, Amy Whinehouse entre outros são os destinatários das cartas da personagem que, fazendo seu trabalho de Inglês, consegue desabafar sobre o incidente com sua irmã May.

Desde o primeiro contato com o texto, percebemos uma linguagem bastante suave e delicada. São frases curtas e com palavras fortes em seu sentido, o que faz uma tradução competente na escolha dos termos adequados de um produtor de texto adolescente.

Isso faz com que a oralidade seja uma característica bastante pontuada pela caracterização dos personagens nos diálogos entre intervalos e os encontros no beco próximo à escola. Hannah, Natalie, Sky e outros personagens foram um quadro de um típico romance YA (young adult, ou jovem adulto – infantojuvenil) com tramas que se passam com adolescentes na escola ou com problemas com a família, como neste caso.

Um ponto forte e bem trabalhado neste livro é a forma como a autora vai expondo o trauma sofrido pela protagonista. O ato de contar os fatos ocorridos com sua irmã mais velha faz de Laurel uma adolescente obcecada por seus gostos e hábitos. Não me intrometo a contar o que realmente aconteceu, mas acredito que um leitor esperto o suficiente consegue juntar as pistas deixadas pelas cartas da protagonista e entendê-la de uma forma mais humana.

Infelizmente, o livro tem alguns pontos a desejar como rodear o mesmo assunto várias vezes, caracterizar exaustivamente o comportamento e apelar para um clima piegas de um romance que mal começou a engatinhar, como Laurel e Sky.
É um livro bastante encorajador na forma de tratamento de um tema profundo em termos psicológicos: o luto. A perda de alguém querido é um sentimento bastante sofrido e acredito que a escrita das cartas é uma forma de lidar com esse impasse da condição humana.

Título: Cartas de amor aos mortos
Autor: Ava Dellaria
Editora: Seguinte
Páginas: 337


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O que seria da vida sem livros?


Realmente existem livros que nos inspiram. Uma lista de clássicos nacionais e estrangeiros pode ilustrar isso. Mas, por incrível que pareça, os livros de hoje podem nos dizer (e muito!) sobre os valores que eles – os próprios livros – têm a nos transmitir.

Claro que não é novidade o fato de livros falarem sobre livros. Pois bem, recentemente me deparei – na Bienal do Livro deste ano, diga-se de passagem – com uma capa, no mínimo, elegante. Vários livros abertos e preenchidos em tons pastel com a frase: “Nenhum livro é uma ilha; Cada livro é um mundo”. Claro! É de A vida do livreiro A.J. Firkry, de Gabrielle Zevin que estou falando.
Primeiro o enredo: numa ilha chamada Alice Island vive A. J., um livreiro carrancudo e solteiro que mora no andar de cima de sua livraria e, espantosamente, não é muito educado com seus clientes e representantes de editoras.

Um dia, ao deixar a porta destrancada (isso pode ser um spoiler, ok?) um bebê é deixado entre as estantes de sua livraria e mais: seu exemplar raro de Tamerlane - um livro raro de Edgar Allan Poe – foi roubado. A partir deste ponto, a vida deste homem muda completamente com a adoção da pequena Maya. Anos depois, com a filha doente, o livreiro se distrai ao lado da cama com o exemplar deixado por uma amável representante: Amélia. A leitura do livro faz com que o protagonista se interesse pelo gosto da moça, o que desencadeia uma serie de sentimentos no livreiro.

De ponta a ponta no livro, convivemos com o dia-a-dia de uma livraria bastante convencional de uma cidade pequena, com seus clubes do livro, os hábitos de seus clientes e eventos um tanto estranhos, como a presença de autores excêntricos.

Infelizmente, lamento por alguns nós desta edição: a revisão deve ser realmente refeita. São erros bastante comuns, como vírgulas fora de lugar, tradução de expressões ao pé da letra que não soa bem em Português e erros de regência verbal. Acredito que não tenho o direito de depreciar o trabalho de uma editora bastante conhecida, como a Cia. das Letras e o selo Paralela, mas, infelizmente, isso um dos pontos que enfraqueceram a recepção do texto.

No entanto, esse livro é indicado aos amantes dos livros e que reconhecem, ainda que seja uma ideia um tanto clichê, o poder transformador da leitura que atrai pessoas com gostos em comum. Afinal, pelas palavras de A.J.: “Você descobre tudo [de] que precisa saber sobre uma pessoa com a resposta desta pergunta: Qual é o seu livro preferido?”(p. 69)

Título: A vida do livreiro A. J. Fikry
Autor: Gabrielle Zevin
Editora: Paralela
Páginas: 186



terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Senhor Bullying


Para quem já está habituado com vídeos-resenha sobre livros na internet, o canal Cabine Literária já é obrigatório nas listas de reprodução do Youtube. São lançamentos do mês, crítica de algum título específico ou as leituras em andamento dos integrantes do canal que fazem sucesso pelo jeito espontâneo e descontraído.

Com uma edição linda, um texto leve e com capítulos bem divididos, Por que Indiana, João?, Danilo Leonardi aborda um tema frequentemente estudado por especialistas nas escolas hoje: o bullying.

Imaginem um menino franzino e desajeitado, com boas notas e tímido. Esse é o perfil de João que se sente estranho, desajeitado e tem apenas um amigo. Mais do que o constrangimento e a vergonha de ser humilhado, as brincadeiras com João tomam uma proporção inimaginável com o post polêmico de sua vingança contra Guilherme, o provocador. Além de sofrer a perseguição na escola, o garoto do primeiro ano do Ensino Médio é filho de pais separados e não consegue se abrir sobre o problema em casa, já que sua mãe está sempre preocupada com outras coisas “mais importantes” do que os sentimentos do filho.

Uísque era o apelido do garoto até então: Uísque... sito! Depois que seu pai percebe o apelido dado pelos garotos da escola no supermercado, o protagonista consegue explicar o que realmente está acontecendo.

Entre idas e vindas na sala da estranha coordenadora pedagógica – um clássico exemplo do modo como a escola age, certas vezes – João perde o controle quando seu problema vai para a internet, fazendo com que a narrativa tenha reviravoltas que nos surpreendem. Com a popularidade instantânea e os milhões de visualizações de seus vídeos, outras pessoas são encorajadas para declarar seus sofrimentos na escola. Entre elas, um garoto bem problemático que leva seu sofrimento às últimas consequências... mais do que isso é spoiler, ok?

Um livro comovente e simples de ser lido. Reconhecemos nele alguns aspectos do trabalho do jovem autor como editor-chefe de um dos mais populares canais literários da internet. Apropriando-se de uma fórmula bastante conhecida de narrativas para jovens adultos (ou Young adults, YA), a pontualidade dos diálogos na caracterização de personagens em ambiente escolar faz deste livro um excelente ponto de partida para uma discussão sobre o bullying que já fez muitos alunos sofrerem e levarem, infelizmente, suas consequências para a vida adulta.

Título: Por que Indiana, João?
Autor: Danilo Leonardi
Editora: Giz Editorial
Páginas: 208


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Uma voz de liberdade


É bem verdade que alguns livros nos incomodam. Não no sentido pejorativo, quero dizer. Existem aqueles que conseguem, na competência de seus temas, tocarem em nossas feridas de um modo particular.

Ao receber um texto em mãos, sempre penso em como proceder na apuração dos temas para a organização de um texto que reflita, ao menos para o leitor, minhas impressões de leitura e seus sentidos. Todo um trabalho de costura de idéias que, por vezes, demora para ser organizado.

Isso não aconteceu quando li Sementes divinas, de Lindalva Galvão devido a sua escrita pungente de humanidade. Explorando temas pertinentes para os dias de hoje, suas situações de vida conseguem colocar em palavras sensações verdadeiramente vividas e sofridas.

O livro inicia com uma autobiografia em que conhecemos os percalços vividos pela autora. São embarques e desembarques em cidades do Vale do Paraíba, retratos do cotidiano difícil da mãe em seus empregos, a entrada para a ordenação religiosa e o início da carreira no magistério. Tudo contado com sentimentos latentes que consegue entremear diálogos e descrições de uma forma testemunhal; o passado é revisitado tendo em vista um novo futuro. É essa a sensação que mais prezo em um texto de qualidade: o que foi vivido no passado pode se atualizar no presente e ser levado para o futuro.

A partir deste ponto, a divisão dos capítulos sugere um aprofundamento maior de alguns temas explorados em sua autobiografia. Três deles se destacam: o racismo, a intuição e a experiência em sala de aula.

O primeiro deles é narrado através de episódios. À maneira de sketches, alguns momentos são contados revelando atitudes discriminatórias e desdenhosas de pessoas que, como define a própria autora, comportam-se como “senhores feudais”. É verdade que o racismo foi adquirido sócio-historicamente no Brasil, mas isso não justifica, em hipótese alguma, atitudes preconceituosas. Um tema polêmico, sem dúvida.

Alguns aspectos psicológicos também são tratados no livro de uma forma leve. A intuição – na caracterização de situações curiosas – dá ênfase nas “coincidências” do cotidiano.

Confesso que a última parte me chamou bastante atenção. Embora se refira à educação de crianças de um modo particular, os pontos de vista podem ser encarados como reflexões para a educação de forma geral.

São situações que só o professor, vivendo a realidade de uma sala de aula, consegue sentir. Os problemas com pais e responsáveis que refletem na educação dos filhos, a relações, por vezes, conflituosa de professores e pais, ou professores e alunos. Um desabafo para questões pontuadas através da aguda observação de gestos de educadores: cenas de um contexto de trabalho e o rigor de uma professora comprometida com a educação.

Vale ressaltar que o modo de tratamento de temas polêmicos pode ser mais importante do que o tema em si, na sua concretude. Pensando na questão do racismo, podemos realizar um diálogo, na aproximação de temas e seus desdobramentos, com produções literárias e (porque não?) cinematográficas que os abordam em um viés histórico. Exemplos não faltam das páginas dos livros ou dos estúdios de cinema.

Quando finalizei a leitura, alguns deles me vieram à mente de forma bastante clara como A cor púrpura, de Alice Walker; 12 anos de escravidão, de Solomon Northup e Django livre, dirigido por Quentin Tarantino pelo retrato da condição escrava e do racismo, logicamente. Todos me fizeram pensar na condição humana de liberdade, de um ser pensante que exerce suas funções sociais, independente de seu credo e sua raça.


Acredito que essa leitura foi uma chave de despertar sentimentos e sensações incômodas. Um incômodo bastante encorajador para entender a vida, ao vê-la pelos olhos do outro.