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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Resenha dupla - Orgias + Sexo na cabeça

Olá! Sempre quando leio Verissimo, as coisas parecem melhorar para mim. Além de serem textos bem curtinhos, suas crônicas possuem elevada carga de humor. E isso sempre é bom, principalmente nesta nossa vida corrida e chata. Apesar de ser bem complicado, para mim, falar sobre contos e crônicas - o que é cômico, pois é o que gosto de escrever -, tentarei explicar um pouco dos dois últimos livros que li do autor.


Sexo na cabeça (Objetiva, 2002, 148 p.) é uma obra que reúne cerca de 45 crônicas com um dos assuntos que - mesmo depois de 25 anos - ainda fico sem graça perto de meus pais. Ou melhor: fico sem graça quando está passando aquele filme tranquilo, e quando papai e mamãe aparecem na sala, está lá, a maior cena de sexo do cinema, parecendo que eu sou a pervertida da família! haha Veríssimo percorre o tema em questão pelos vários pontos de vista: carnal, espiritual, biológico e até cultural, eu diria. O ponto alto deste livro foi a linguagem bem familiar. É como se sentássemos numa roda de amigos e ali surgisse o assunto Sexo. E Luis, ou Luisinho, dependendo do grau de intimidade da roda de amigos, contaria-nos uma de suas peripécias, ou uma das histórias hilárias que aconteceu com o amigo do pai do colega de serviço do primo dele, sabe?! Ou ainda assumiria o papel do intelectual Kid Cultura, e de seus lábios sairiam as mais fantásticas histórias de como tudo era lá no começo do mundo. Ou ainda, ou ainda, o papel daquele professor supimpa que discorre o tema sexo em sala de aula, filosofando sobre sua origem segundo a visão religiosa, mas com pitadas de Um sábado qualquer.
A minha tese de que o homem descende do macaco, mas a mulher não, é apoiada em evidências científicas, não só no fato de que somos mais feios e cabeludos. (Primatas, p. 47)
Já Orgias (Objetiva, 2005, 132 p.) reúne 34 crônicas que descrevem muito bem como é a vida da raça humana (principalmente dos brasileiros): tão desorganizada e ao mesmo tempo tão prazerosa. Afinal, o que seriam os finais das festas de aniversários infantis, sem aquelas crianças todas perdidas no meio de brigadeiros e balões?! Ou aquele pagode da Djalmira sem as conversas aleatórias, variando a última morte da turma, com a famosa feijoada com costelinha de porco, paio, rabinho de porco... Veríssimo mostra com seu singular humor de sempre, que para ser brasileiro, é quase lei ter uma dose de orgia... Ops! Desorganização!
Ela era o meu tu, eu era o tu dela. Juntos, inauguramos vários verbos que estão em uso até hoje. E eu a chamei de Altimanara, mas Deus vetou e lhe deu outro nome. E quando ela perguntou como era o meu nome, respondi "Mastortônio", mas Deus limpou a garganta, inventando o trovão, e disse que não era não. Ficou Adão e Eva (eu Adão, ela Eva) aos olhos do Senhor e na História oficial mas em segredo, isto pouca gente sabe, nos chamávamos de Titinha e Totonho. E foi ela que disse "Totonho, quero que tu me conheças mais a fundo". E eu: "No sentido bíblico?" E ela: "Existe outro?" E inauguramos outro verbo. (A primeira pessoa, p. 109).
Título: Sexo na cabeça
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Páginas: 148 p.
 
Título: Orgias
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Páginas: 132 p.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O poder do diálogo [resenha]


Ao pegar um livro, muitas vezes, pode nos parecer clichê nos perguntar o motivo da escolha e sempre nos vem à mente: gostei da capa, ouvi falar muito bem ou o autor é o badalado do momento.

Acredito fortemente que a influência para a escolha de um título seja o convívio com outras pessoas, com os mesmos gostos ou não. É nesse sentido que posso me referir, mesmo não me aprofundando no assunto, à literatura religiosa que vem conquistando estantes ultimamente.

Em uma das conversas de trabalho, eis que surge uma pauta interessante sobre literatura: o tema religioso dentro do texto literário pode ser polêmico? Todos nós sabemos que a literatura, na criação de mundos ficcionais, consegue nos levar a estados não imaginados pela racionalidade humana... e a religião? que papel ela consegue fazer neste percurso?

São essas as questões que me consumiram na leitura de O discípulo da madrugada, de Pe. Fábio de Melo. Confesso que esperava mais do livro, já que tinha lido uma obra do autor e tinha gostado por abordar um tema pelo qual eu estava passando naquele momento...mas isso é assunto para outro post.

O enredo gira em torno de um homem que se tornou amigo de Jesus e que o acompanhou boa parte de sua vida. No entanto, ao acompanhar seus últimos dias, esse protagonista sem nome – propositalmente, creio eu – não assumiu a amizade e o bem que Jesus lhe fez ao longo de suas intermináveis conversas pela madrugada afora.

Até este ponto da história encarei o protagonista com olhos de uma maldade sem fim, entendendo ser ele um dos opositores da doutrina cristã. O que me surpreendeu foi que, conhecendo mais de perto este personagem, constatei que a influência dos outros sobre seus pontos de vista era muito grande. Na verdade era uma pessoa extremamente fragilizada e com alguns nós pessoais ainda por resolver.

Não adiantando os fatos do enredo, em certo ponto da narrativa, o personagem – também narrador – toma uma atitude frente aos acontecimentos de sua vida e relembra, com extrema nostalgia, os diálogos e as conversas que teve com Jesus. Os pontos abordados pelo autor tocam em questões relativas à imagem de Deus na cultura dos homens, o valor e o verdadeiro sentido da fé cristã e da vida de certa forma.

Por esse breve resumo, percebemos a profundidade religiosa e filosófica colocada pelo autor. Não poderia ser diferente, já que o autor tem uma formação eclesiástica que dialoga diretamente com o modo de pensar teológico e cristão, logicamente. O único ponto que gostaria que fosse um pouco mais claro é a linguagem. Existem capítulos – curtos e densos – que se preocupam mais em explicar a base filosófica do desenvolvimento do personagem do que o enredo. É claro que isso pode ser uma característica de estilo do autor e sua formação, já mencionada, serve como um contexto de influência sobre seu modo de escrever.

O que gostaria de enfatizar é a prática do diálogo como fonte de conhecimento inesgotável e que foi, como nos relata o discurso religioso, a forma escolhida por Jesus para lançar as bases da doutrina cristã. Prova cabal de que a literatura está presente na religião são as parábolas. São histórias bem curtas e populares da época que, provenientes de uma cultura oral, conseguiram passar a moral cristã.

Os leitores que se interessam por temas religiosos e que não se apegam a clichês e frases prontas, com certeza irão se reconhecer na construção de um texto, por vezes, simples na construção de personagem e a ambientação da narrativa. Porém, profundo na abordagem de temas que tocam a humanidade na sua mais densa camada de sentido.

Título: O discípulo da madrugada
Autor: Padre Fábio de Melo
Editora: Planeta
Páginas: 182


terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Senhor Bullying


Para quem já está habituado com vídeos-resenha sobre livros na internet, o canal Cabine Literária já é obrigatório nas listas de reprodução do Youtube. São lançamentos do mês, crítica de algum título específico ou as leituras em andamento dos integrantes do canal que fazem sucesso pelo jeito espontâneo e descontraído.

Com uma edição linda, um texto leve e com capítulos bem divididos, Por que Indiana, João?, Danilo Leonardi aborda um tema frequentemente estudado por especialistas nas escolas hoje: o bullying.

Imaginem um menino franzino e desajeitado, com boas notas e tímido. Esse é o perfil de João que se sente estranho, desajeitado e tem apenas um amigo. Mais do que o constrangimento e a vergonha de ser humilhado, as brincadeiras com João tomam uma proporção inimaginável com o post polêmico de sua vingança contra Guilherme, o provocador. Além de sofrer a perseguição na escola, o garoto do primeiro ano do Ensino Médio é filho de pais separados e não consegue se abrir sobre o problema em casa, já que sua mãe está sempre preocupada com outras coisas “mais importantes” do que os sentimentos do filho.

Uísque era o apelido do garoto até então: Uísque... sito! Depois que seu pai percebe o apelido dado pelos garotos da escola no supermercado, o protagonista consegue explicar o que realmente está acontecendo.

Entre idas e vindas na sala da estranha coordenadora pedagógica – um clássico exemplo do modo como a escola age, certas vezes – João perde o controle quando seu problema vai para a internet, fazendo com que a narrativa tenha reviravoltas que nos surpreendem. Com a popularidade instantânea e os milhões de visualizações de seus vídeos, outras pessoas são encorajadas para declarar seus sofrimentos na escola. Entre elas, um garoto bem problemático que leva seu sofrimento às últimas consequências... mais do que isso é spoiler, ok?

Um livro comovente e simples de ser lido. Reconhecemos nele alguns aspectos do trabalho do jovem autor como editor-chefe de um dos mais populares canais literários da internet. Apropriando-se de uma fórmula bastante conhecida de narrativas para jovens adultos (ou Young adults, YA), a pontualidade dos diálogos na caracterização de personagens em ambiente escolar faz deste livro um excelente ponto de partida para uma discussão sobre o bullying que já fez muitos alunos sofrerem e levarem, infelizmente, suas consequências para a vida adulta.

Título: Por que Indiana, João?
Autor: Danilo Leonardi
Editora: Giz Editorial
Páginas: 208


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Uma voz de liberdade


É bem verdade que alguns livros nos incomodam. Não no sentido pejorativo, quero dizer. Existem aqueles que conseguem, na competência de seus temas, tocarem em nossas feridas de um modo particular.

Ao receber um texto em mãos, sempre penso em como proceder na apuração dos temas para a organização de um texto que reflita, ao menos para o leitor, minhas impressões de leitura e seus sentidos. Todo um trabalho de costura de idéias que, por vezes, demora para ser organizado.

Isso não aconteceu quando li Sementes divinas, de Lindalva Galvão devido a sua escrita pungente de humanidade. Explorando temas pertinentes para os dias de hoje, suas situações de vida conseguem colocar em palavras sensações verdadeiramente vividas e sofridas.

O livro inicia com uma autobiografia em que conhecemos os percalços vividos pela autora. São embarques e desembarques em cidades do Vale do Paraíba, retratos do cotidiano difícil da mãe em seus empregos, a entrada para a ordenação religiosa e o início da carreira no magistério. Tudo contado com sentimentos latentes que consegue entremear diálogos e descrições de uma forma testemunhal; o passado é revisitado tendo em vista um novo futuro. É essa a sensação que mais prezo em um texto de qualidade: o que foi vivido no passado pode se atualizar no presente e ser levado para o futuro.

A partir deste ponto, a divisão dos capítulos sugere um aprofundamento maior de alguns temas explorados em sua autobiografia. Três deles se destacam: o racismo, a intuição e a experiência em sala de aula.

O primeiro deles é narrado através de episódios. À maneira de sketches, alguns momentos são contados revelando atitudes discriminatórias e desdenhosas de pessoas que, como define a própria autora, comportam-se como “senhores feudais”. É verdade que o racismo foi adquirido sócio-historicamente no Brasil, mas isso não justifica, em hipótese alguma, atitudes preconceituosas. Um tema polêmico, sem dúvida.

Alguns aspectos psicológicos também são tratados no livro de uma forma leve. A intuição – na caracterização de situações curiosas – dá ênfase nas “coincidências” do cotidiano.

Confesso que a última parte me chamou bastante atenção. Embora se refira à educação de crianças de um modo particular, os pontos de vista podem ser encarados como reflexões para a educação de forma geral.

São situações que só o professor, vivendo a realidade de uma sala de aula, consegue sentir. Os problemas com pais e responsáveis que refletem na educação dos filhos, a relações, por vezes, conflituosa de professores e pais, ou professores e alunos. Um desabafo para questões pontuadas através da aguda observação de gestos de educadores: cenas de um contexto de trabalho e o rigor de uma professora comprometida com a educação.

Vale ressaltar que o modo de tratamento de temas polêmicos pode ser mais importante do que o tema em si, na sua concretude. Pensando na questão do racismo, podemos realizar um diálogo, na aproximação de temas e seus desdobramentos, com produções literárias e (porque não?) cinematográficas que os abordam em um viés histórico. Exemplos não faltam das páginas dos livros ou dos estúdios de cinema.

Quando finalizei a leitura, alguns deles me vieram à mente de forma bastante clara como A cor púrpura, de Alice Walker; 12 anos de escravidão, de Solomon Northup e Django livre, dirigido por Quentin Tarantino pelo retrato da condição escrava e do racismo, logicamente. Todos me fizeram pensar na condição humana de liberdade, de um ser pensante que exerce suas funções sociais, independente de seu credo e sua raça.


Acredito que essa leitura foi uma chave de despertar sentimentos e sensações incômodas. Um incômodo bastante encorajador para entender a vida, ao vê-la pelos olhos do outro.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Resenha - A vida secreta de Jonas + O fantasma que falava espanhol

Olá!
Hoje venho fazer uma resenha de dois livros infanto-juvenis que li na semana passada. Os dois livros são de Luiz Galdino, um autor de minha região. Ele nasceu na cidade de Caçapava, interior de São Paulo, e é professor e escritor. Tem quase sessenta obras lançadas, dentre elas, infanto-juvenis, ficção para adultos e ensaios. Já ganhou mais de trinta prêmios, como o Prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (DF) e o Jabuti. Os dois livros que li de Luiz Galdino, foram livros que eu comprei em sebos, e fazia muito tempo que eu queria ler. Irei falar um pouco sobre cada um deles.
jonas
A vida secreta de Jonas (Ática, 1999, 96 p.) é um dos livros da série Vaga-lume, série tão consagrada nos anos 90. Neste livro, somos apresentados a um grupo de amigos: Geninho, Cláudia, Maurício, Rubão, Rafa e Ana Paula. Estudam na mesma escola e todos os dias se encontram num banco da praça. Um dia, vêm em direção a eles um garoto loiro, com roupas bem esfarrapadas. O grupo, de início, estranha o indivíduo, mas Geninho e Ana Paula acabam simpatizando muito com ele. O garoto não lembra de nada de sua vida: de onde veio, de seus pais, e até de seu nome. Eles o batizam de Jonas. Porém, Mauricio e Rubão não gostam nem um pouco da presença de Jonas e fazem de tudo para que o grupo vire as costas para ele. A cidade começa a ficar desconfiada e com medo deste garoto tão estranho. Por que ele não lembra de nada? De onde ele veio? Por que é tão simpático, mesmo quando todos estão contra ele?
Gostei bastante do livro. Como vocês já devem saber, o tema extraterrestre me interessa muito haha  Fiquei bastante curiosa com o rumo da história, e em vários momentos fiquei bastante confusa: Jonas é ou não é um extraterrestre?

fantas
O fantasma que falava espanhol (FTD, 1994, 103 p.) segue a mesma linha de A vida secreta de Jonas: cheio de aventuras. Um grupo de amigos vai até uma ilha, querendo fazer uma pesquisa sobre barcos afundados. Lá eles devem se encontrar com o senhor Ernesto, que é o único morador da ilha, para pedir mais informações. Vasculhando o pequeno monte de terra, encontram um casarão abandonado. Os mais corajosos espiam para dentro da casa, mas algo muito estranho acontece: Cláudia quase leva um tiro. De onde veio aquele tiro? O senhor Ernesto é o único morador da ilha e aparenta ser um senhor muito tranquilo. Durante a estadia dos amigos na casa do pescador, ele conta que há uma lenda de que aquela casa é mal-assombrada. E muitas coisas estranhas vão acontecendo: algo ou alguém está querendo expulsar os visitantes da ilha por algum motivo.
Desde criança eu morria de vontade de ler este livro. Havia uma série na TV Cultura chamada O fantasma escritor - que por sinal, com todo mundo que eu comento, ninguém lembra. Tenho até medo de ser fruto da minha imaginação haha -, onde havia um grupo de amigos que se comunicava com um fantasma (tinha uma caneta muito maneira que escrevia "sozinha") através da escrita. E sim, eu queria ler este livro por causa desta série da TV Cultura. Talvez o livro trouxesse lembranças da época. Mas foi bem diferente do que imaginei! O fantasma é bem malvado, tentando a qualquer custo assassinar o grupo de jovens. Um livro bem gostoso de ser lido.

Título: A vida secreta de Jonas
Autor: Luiz Galdino
Editora: Ática
Páginas: 96
Título: O fantasma que falava espanhol
Autor: Luiz Galdino
Editora: FTD
Páginas: 103

domingo, 24 de agosto de 2014

Resenha - Não atravesso a rua sozinho + Olhos de raposa

Já faz duas semanas que terminei de ler estes dois livrinhos. Livrinhos é só uma forma carinhosa de chamar dois livros que fiquei completamente apaixonada. Não conhecia nada de Fabrício Carpinejar. Quando consegui a parceria com a editora Edelbra, fiquei tão contente; e ainda mais depois quando descobri que eles são a publicadora de Carpinejar. Os livros chegaram bem rápido, e logo de cara fiquei louca para começar. Ok, comecei! Deixei todos para trás e botei na frente mesmo haha


O primeiro que li foi Não atravesso a rua sozinho (2013, 108 p.). Grande foi minha surpresa ao saber que Fabrício é um poeta, escrevendo prosa. Logo no epílogo, ele já deixa avisado: “Esta é a minha biografia. Se eu inventei, é porque não consegui suportar a realidade“. Já achei isso de uma incrível sinceridade. Nem sempre conseguimos contar a total realidade das coisas. E é assim que o livro segue: com tendências para a realidade, salpicadas com pequenas doses de fantasia. O que pude perceber em suas crônicas, é que o autor teve uma infância um tanto quanto agitada, com seus amigos da rua, com seus parentes e sua imaginação voando longe.


O segundo livro que recebi da editora Edelbra, e li logo após o primeiro, foi Olhos de raposa (2014, 124 p.), onde o autor conta a vivência com seus filhos Mariana e Vicente. Sob o olhar de uma criança, as coisas realmente passam a ser mais interessantes. Elas veem detalhes que nós, adultos, esquecemos espalhados pelos caminhos que a vida se encarrega de nos empurrar. Há situações em que eu me peguei pensando: “até parece que uma criança vai falar isso”. Mas acabei lembrando de diversas histórias emocionantes que já ouvi, vindas das bocas dos próprios pais, avós, e tios corujas: relatos de crianças tão espertas quanto qualquer adulto.

É muito difícil fazer uma resenha de um livro que acaba completando sua função. Então deixo aqui, como últimas palavras, uma linda frase escrita pelo próprio autor dos dois livros: “A desistência da explicação é o início do poema“.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Resenha - Contato com os discos voadores


Demorei uma eternidade para ler este livro, mas pronto, está lido! Uhul!! Bem, irei escrever tudo isto, mas no meu vídeo também falo a maior parte destas informações rs


Peguei por acaso este livro na biblioteca pública de minha cidade. Contato com os discos voadores, de Dino Kraspedon (Vitória, 1995, 147 p.), é um livro muito famoso na área de Ufologia. Sempre gostei muito deste tema e outros parecidos (mistérios, UFO, Triângulo das bermudas, etc.). Sério, no começo não dei o menor crédito, pois segundo o autor, ele teve um encontro com um visitante intergalático vestido de pastor, em uma tarde, na sua casa. Dei risada e continuei lendo. Mas aquilo me incomodou muito. Fui pesquisar sobre o livro na internet e pronto! Minha curiosidade veio ainda mais à tona.

Não sei direito por onde começar, mas vou tentar. Dino Kraspedon é um nome fictício (isso é de se desconfiar, mas ok rs). O nome verdadeiro do autor é Aladino Félix, e ele nasceu na cidade vizinha à minha, Lorena (interior de São Paulo). Isso já mexeu um pouco comigo, pois vamos combinar: quando um livro é escrito por alguém de sua região, você se sente mais em casa, não?! Mas fiquei pensando: porque raios o homem foi mudar seu nome, se já não tem um nome muito comum?! Ahá! Foi aí que descobri outra coisa: Aladino Félix - ou Dino, como preferirem - era um dos chefes de um grupo terrorista (de extrema direita) na época da Ditadura Militar. E sim, minha gente. Eu estava com um livro até meio raro em minhas mãos, segundo pesquisei. Fui procurá-lo para compra, e o mais baratinho que encontrei, custava 40 pila, no Estante Virtual. Ah, e uma informação que achei bem interessante... Ele é antecedente à Erich von Däniken, o autor de Eram os deuses astronautas?, com a obra A antiguidade dos discos voadores. Se você quer saber mais sobre ele, acesse aqui a matéria que trata sobre o misterioso autor, na Revista UFO. E quem quiser ver mais ainda, clique aqui ;)

Falando sobre o livro agora: como já disse ali em cima, Dino afirma que um extraterreno visitou sua casa, com informações pra lá de estranhas sobre a física. Não somente sobre a física, mas isso é o que domina ao menos 90% do livro. Eu sou uma completa leiga no assunto, e não posso afirmar nada muito diferente a vocês. Mas que boa parte das informações do ET me assustaram - ah sim - assustaram bastante. Não há nada que comprove suas teorias "malucas", pois sempre na pergunta principal de Dino ao visitante, ele dava um jeitinho de se safar, e desviava o assunto, dizendo que isto, os humanos iriam ter que aprender por si só (Não sei se ficou confuso, mas... rs). Em seus outros 10% de livro, o visitante conta como os humanos estão decaindo cada vez mais em seus próprios erros. Também não é nada que nos impressione, pois são coisas óbvias e que já estamos carecas de saber, como "se todos plantassem o que fossem comer, haveria menos fome e guerra no mundo". Discursos deste estilo circulam seu puxão de orelha.

É um livro interessante?! Sim, claro. Principalmente pela história toda que ronda o livro e seu autor. Como não é um livro com uma história, e sim um relato, não há problemas em contar o "final" do livro rsrs Acredito não ser um spoiler. Em seus últimos capítulos, o autor foca bastante em Deus, na espiritualidade e em tudo o que homem está fazendo para acabar com sua própria raça. É interessante o modo como ele aborda, dando "exemplos de outros planetas", e julgando a Terra como o único no Sistema Solar que ainda tem habitantes que guerreiam contra a própria espécie. Serviu até mesmo como uma reflexão. O homem luta contra o próprio homem, e - juro, havia me esquecido desse detalhe (ou me adaptado a ele) - deixa de lado sua humanidade.

Veja aqui uma entrevista com Dino Kraspedon (confesso que é um pouquinho monótona, mas assista: é bem legal!)

PS: O livro me fez lembrar fortemente uma obra de meu autor favorito, Jostein Gaarder: O castelo nos Pirineus. Não vou me aprofundar aqui sobre esta história - principalmente porque a maior parte que li, eu não estou lembrada. Mas em uma de suas lembranças da conversa que teve com o extraterreno, Dino relata que outras formas de vida existem sim fora da Terra, mas são formas de vida que se adaptam à sua própria natureza. Jostein em O castelo nos Pirineus também faz esta mesma afirmação. Como ele mesmo diz: Quem disse que para haver vida fora da Terra, precisa haver água em abundância (ou melhor: água!), temperatura adequada e oxigênio?! Fica aí uma ótima reflexão para nós :)


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Livros infantis de parceria


Livros para crianças devem ser coloridos? Sim! E devem ter linguagem própria para elas? Claro! Os livros que recebi da Editora Carochinha, de parceria, contém tudo isso. Meu primeiro bichonário, de Marco Hailer (com ilustrações de Juliana Basile), é um livro com dimensões grandes, feito mesmo para crianças. Traz o desenho vários bichinhos, e na página ao lado, sua letra inicial. Ótimo livro para as crianças que estão aprendendo o alfabeto. Só para constar: o título do livro, eu achei genial!

E o outro livro que recebi, Contos que ninguém te conta (Carochinha, 2014, 47 p.), é do mesmo autor, e traz ilustrações da Lais Dias. Lais encheu o livro com desenhos lindos, e vários deles, geométricos, dando um charme a mais. Neste livro, Marco reconta várias histórias conhecidas, como João e o pé de feijão e Os três porquinhos. Com modificações muito bonitas, o autor me arrancou boas risadas.

Título: Meu primeiro bichonário
Autor: Marco Hailer (com ilustrações de Juliana Basile)
Editora: Carochinha
Páginas: -

Título: Contos que ninguém te conta
Autor: Marco Hailer (com ilustrações de Lais Dias)
Editora: Carochinha
Páginas: 47

Logo resenha em vídeo ;)


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Resenha - [manual prático de bons modos em livrarias]


Quem nunca chegou num estabelecimento comercial e perguntou pra alguém - uniformizado e com crachá - "Você trabalha aqui?" não sabe o que é viver perigosamente, segundo este livro. [manual prático de bons modos em livrarias] (Soeman, 2013, 232 p.), escrito pela livreira Hillé Puonto - ou Lilian Dorea, como preferirem -, conta de forma divertidíssima o dia a dia de livreiros e situações pra lá de inusitadas. Com ilustrações belíssimas de Diogo Machado, prefácio de Joselia Aguiar e introdução de Nina Vieira, Hillé com sua identidade e formação jornalística (por profissão) e blogueira (por opção), enfeitiça-nos da primeira à última página.

Casos como o da senhora que jura ter uma gangue de perninhas de óculos, ou da freguesa que jura de pés juntos que o Saramago é brasileiro, são citados neste afetuoso livrinho. Digo livrinho, pois é em formato pocket. As histórias que estão lá dentro são tão incríveis, que a grande maioria é difícil acreditar que sejam verdade. Vários dos causos estão em sua página no Facebook ou em seu blog, mas ainda assim não perdem a graça.

No final do livro, a autora ainda nos presenteia com uma lista de livrarias e sebos bem legais, vários sites que tem sua temática voltada à livros, e indicações de livros que falam sobre livros. Indico muito, principalmente se está precisando de algo para sair de uma ressaca literária terrível, e quer dar boas gargalhadas.

Título: [manual prático de bons modos em livrarias]
Autor: Lilian Dorea
Editora: Soeman
Páginas: 232


domingo, 20 de julho de 2014

Resenha - O grande livro das pessoas sem nome


Repito: livros sempre deixam alguma sensação em nós. E seja ela ruim, boa, atormentadora ou mesmo aliviadora, nunca é uma sensação em vão. O grande livro das pessoas sem nome, de Leandro Soriano Marcolino (Clube de autores, 2013, 162 p.) eu realmente não sei qual sensação deixou em mim. Fiz algumas marcações, como de praxe. Existem ótimas frases de efeito, e ótimas reflexões. É um livro de contos, onde nenhum personagem tem um nome. E é exatamente assim que corre nossa vida: pessoas passando por ela, pessoas totalmente sem nome a nós, desconhecidos. E são situações corriqueiras - apesar de, no livro, ele citar várias situações um tanto impossíveis de acontecer no mundo real.

Existe um homem que não é mais reconhecido por ninguém. Existe um casal desconhecido, que se encontra num trajeto para casa, e dali não poe passar o relacionamento deles. E existe um amuleto. Ah, esse amuleto me irritou profundamente. E aqui fica minha mais profunda crítica (decepcionada, mas ainda uma crítica): não precisa gastar nove páginas somente com um símbolo japonês que eu não sei o que quer dizer. Sim, nove páginas somente com o símbolo. Muitas pessoas chamam isso de arte. Mas eu, particularmente, não gostei. E pronto.

Ainda assim, fiquei curiosa com o outro livro do autor, "Vida", publicado em 2010 pela editora Biblioteca 24X7. Mais uma vez, repito: muitas pessoas gostam, acham que é arte contemporânea (ou coisas do tipo), mas eu realmente não consigo ser conquistada por este tipo de obra.

Título: O grande livro das pessoas sem nome
Autor: Leandro Soriano Marcolino
Editora: Clube de autores
Páginas: 162 p.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Resenha - Memórias de julho


Livros geralmente nos trazem sensações diferentes, um do outro. Este último que li trouxe-me acima de tudo, um sentimento de nostalgia. E foi um sentimento tão bom, que fazia tanto tempo que eu não sentia, que foi um prazer lê-lo do começo ao fim. O livro Memórias de Julho, de Jéssica Figueiredo (Clube de autores, 2014, 365 p.) é uma publicação independente. Mesmo com sua páginas brancas (o que na teoria incomoda os leitores a ler na luz do sol), eu o devorei. Até me esqueci do incômodo, de tão boa que a história era.

Marcos é o protagonista, narrador e um dos personagens mais cativantes. Há também Mila, Mari, Juan e Lucas - e Rói-Rói, o cãozinho. Estes cinco amigos sempre se encontram no mês de julho para brincar numa cabana que montaram. E decidiram que todos os anos iriam tirar uma foto com todos os membros do grupo e colocar estas fotos dentro de um baú. Junto com as fotos, sempre guardavam um desejo. Sabemos que uma hora ou outra, cada um vai para um lado, e os amigos acabam tendo de se separar. E foi isso que aconteceu. Depois de certo tempo, Marcos quer rever os amigos por causa de sonhos que têm incomodado suas noites, sempre no mês de julho. Para isso, precisará da ajuda dos pais e da irmã Júlia.

A única crítica que eu teria, já fiz diretamente à autora: alguns probleminhas com pontuação/ortografia. Como uma publicação independente, entendemos os equívocos.  E ela até já se atentou a isso, contratando uma pessoa para revisar seus textos. Jéssica é uma autora bem nova: 20 aninhos. Mora em Recife, o local onde se passa a história. Indico muito a leitura. É simplesmente encantadora.

Para quem quiser, pode adquirir diretamente deste site. Você pode adquirir como e-book ou livro físico.

Título: Memórias de julho
Autor: Jéssica Figueiredo
Editora: Clube de autores
Páginas: 365


terça-feira, 8 de julho de 2014

Resenha - Se arrependimento matasse


Êêê, finalmente resenha nova! haha
Alex, Alice e Rebeca são três amigos que há muito não se encontravam. Alex é filho de donos de um hotel e leva Alice (que é um homem rs) e Rebeca para que passem alguns dias, relembrando os velhos tempos. Alice é um mocinho muito simpático e paciente, Alex é um tanto explosivo e Rebeca demonstra ser um pouco mimada. Mesmo com a diferença de características, os três se dão super bem, e acabam dando boas risadas juntos.

Chegando ao hotel, são recebidos pelos funcionários. Jantam com outros hóspedes, jogam cartas e vão para seus quartos descansar. A energia tem uma queda - e é uma noite chuvosa. É quando o pai de Alex os chama, dizendo que é com urgência que devem se dirigir à cozinha. Chegando lá, encontram Victor, o cozinheiro, morto com uma facada no pescoço. Diante de tal fato, somado com a tempestade e as linhas de telefone cortadas, os três amigos e demais hóspedes ficam ilhados em um hotel, onde nada nem ninguém parece ser confiável.

O livro Se arrependimento matasse, do jovem autor Alma Cervantes (Novo Século, 2013, 240 p.) foi um dos melhores livros policiais que li recentemente. Bem no estilo Agatha Christie, o autor desfia seu romance de um modo um tanto calmo. Não se apressa em nenhuma parte, respondendo à todas as questões. Aguardo, com certeza mais livros do autor.


Título: Se arrependimento matasse
Autor: Alma Cervantes
Editora: Novo Século
Páginas: 240

Quem quiser comprar o livro, veja diretamente na página do Facebook, clicando aqui.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Resenha - O quarto fechado


Alguns livros são tão bons que qualquer palavra dita além dele, é desnecessária. Assim acontece com O quarto fechado(Siciliano, 1984, 133 p.), da autora brasileira Lya Luft. Apesar de suas poucas páginas, demorei um bom tempo pra ler (cerca de uma semana), pela sua escrita densa e cheia de significados. Sua história gira em torno do falecimento de um dos filhos de Renata, a personagem principal. Camilo (o filho falecido) é gêmeo de Carolina. Renata é uma mulher um tanto agressiva com a vida: amarga, carrega mágoas passadas, sofre com o amor que não consegue dar a ninguém - somente ao piano que não toca há anos. Camilo e Carolina têm uma relação um tanto estranha: é como se ao nascer tivessem sido separados, sendo antes um único ser.

Se no parágrafo anterior falei somente sobre personagens e sobre nada da história do livro, é isto mesmo que você encontrará. Histórias de personagens. Cada um com suas preocupações, suas paranoias, suas esquisitices, comuns de todo ser humano. É um livro tocante, verdadeiro, real, e tão real a ponto de dar vergonha. A cada frase, Lya resume em pouquíssimas palavras sensações que temos, aquelas bem do fundo da alma, que temos vergonha de confessar a qualquer pessoa.

Comparada a Clarice Lispector muitas vezes, a autora gaúcha é uma das mais femininas da atualidade (femininas, e não feministas), e fala com propriedade de temas tabus. Autora de vários romances, livros de contos e colunista da revista Veja, Lya, para mim, é a autora mais espetacular ainda viva.

Título: O quarto fechado
Autor: Lya Luft
Editora: Siciliano
Páginas: 133



segunda-feira, 30 de junho de 2014

Resenha - Doidas e Santas

Tirei daqui
Poxa, já faz uma semana que ninguém aparece por aqui não é?! rs
Sentiram saudades? Desculpem-nos pela ausência. Final de semestre é sempre aquela correria toda. Mas vamos ao que interessa: resenha! rs

Demorei em torno de um ano para ler este livro. Não que ele seja ruim, longe disso. Mas talvez eu não estivesse na época certa para lê-lo. Época certa, coisa engraçada de ser falada. Mas isso sempre acontece comigo. Tem épocas que não estou nem um pouco preparada para ler determinado gênero. O livro Doidas e Santas, de Martha Medeiros (L&PM, 2008, 232 p.) é uma reunião de várias crônicas sutis, divertidas - e algumas, na minha opinião, bem sexistas. Martha fala do cotidiano, de assuntos corriqueiros e coloca muita leveza ao olhar o comum.

O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de dicas de livros e filmes (e peças de teatro que na época estavam em alta) que ela oferece ao leitor. Dá pra fazer uma lista extensa. Apesar de encontrar vários apelos ao feminismo (mais uma vez, na minha opinião), ela conseguiu me encantar novamente com sua escrita. Como em seus outros livros de crônicas, distribui puxões de orelhas - com razão.

Título: Doidas e santas
Autor: Martha Medeiros
Editora: L&PM
Páginas: 232


terça-feira, 17 de junho de 2014

Resenha - O segredo das quatro letras


Confesso que desacostumei a ler fábulas. Antigamente lia mais - talvez pelo fato de ser mais nova, ou pelo fato de não gostar de leituras muito complexas. Aí vamos nos acostumando com leituras legais, interessantes, e que acabam exigindo um pouco mais de nosso cérebro. Fábulas são legais se bem contadas: trazem-nos lições de moral, de ética, e fazem-nos refletir sobre a verdadeira importância da vida.

Conheço Gabriel Chalita desde meus poucos anos de idade, não que eu tenha muitos. Sempre admirei sua obra, e talvez um de seus livros tenha feito com que eu me interessasse até mesmo por literatura de qualidade. Em Trilogia da vida (são três livrinhos: O livro do sol, O livro dos amores, O livro dos sonhos), ele reconta alguns clássicos, como Tristão e Isolda, e conta a história de outros personagens famosos de nossa literatura. Fiquei encantada quando conheci Chalita pessoalmente, toda trêmula, com treze anos de idade. Li outras diversas obras do autor, mas tenho que confessar que não fiquei muito animada com a leitura de O segredo das quatro letras (Ediouro, 2008, 91 p.).

Apenas ao ler o título, já sabia quais quatro letras seriam essas. A primeira história é dividida em quatro partes. Um senhor muito sábio, usa as fábulas para explicar um pouco sobre a vida para as crianças de uma aldeia. A segunda e terceira histórias dão lições de moral, fala-nos sobre o perdão e o egoísmo. São temas interessantes, contudo as histórias não me agradaram. Foram contadas de forma muito rápidas, bem previsíveis. Não sei se estou errada, mas tenho quase certeza que as fábulas são assim mesmo: histórias rápidas, com finais previsíveis. Até porque são histórias para crianças. Ainda assim... Prefiro as fábulas antigas.

Título: O segredo das quatro letras
Autor: Gabriel Chalita
Editora: Ediouro
Páginas: 91


sábado, 7 de junho de 2014

Dobradinha Book Cine- A hora da estrela


É engraçado quando encontramos algumas pessoas nas ruas e pensamos em uma história para sua vida, não é?! Sempre faço isso. É uma diversão à parte. E Clarice Lispector, com sua poesia refinada, romanceia este simples ato: o olhar o próximo com uma perspectiva e ideias, muitas ideias diferentes.

Em A hora da estrela (Rocco, 1998, 87 p.) a autora incorpora Rodrigo S. M. Relato. Um dia, o narrador depara-se com uma mulher que ao olhar no fundo de seus olhos, ele próprio já sabe que ela é nordestina, de Alagoas, tem 19 anos e é datilógrafa. A partir disso, ele cria uma história completa para Macabéa - este é seu nome. A personagem tem um quê de ser humano cru, que é quase impossível descrever em uma resenha. Ela é inocente, pura, tem medo de palavras, tem um rádio como seu amigo e professor de coisas banais. Sempre preparada para perguntas esdrúxulas, acaba conhecendo Olímpico de Jesus, operário de uma metalúrgica, que adorava se auto-denominar metalúrgico.

Em diversas partes do texto, Rodrigo Relato pára sua narrativa e conversa com o leitor: "
Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem de estilo, ela é ao deus-dará" (p. 36). Consciente de que sua história pode ser impossível - afinal foi só um encontro de olhares - nosso narrador descreve tão bem sua personagem principal, que é possível nutrir por ela sentimentos reais, como amor, ódio, tristeza, mas principalmente piedade.


Sou suspeita para falar desse livro. Vi algumas resenhas, denominando-o como um livro poético, e difícil. Estranhei bastante. Pra mim, é um dos livros mais fáceis - e nem por isso menos profundos - de Clarice. Ela escreve com tanta tranquilidade de descrições, que visualizamos Macabéa em nossa frente. Amo de paixão todas as descrições dadas. Rio demais com a nudez com que é escrito. É um livro indispensável para a vida.

Título: A hora da estrela

Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 87


Dobradinha - Filme A hora da estrela

Depois de ler o maravilhoso livro de Clarice Lispector, o Ivan me emprestou o filme A hora da estrela, dirigido por Suzana Amaral (Raiz Produções, 98 minutos, 1986). Há um tempo, a Folha de São Paulo lançou uma coleção nomeada Grandes livros no cinema, sendo este o quarto volume. O DVD é acompanhado de um livretinho, contendo uma pequena história do livro e de seu autor, e depoimentos de artistas que de alguma forma tiveram contato com a obra. E é bem interessante observar pontos que são citados no livreto; pontos dos quais não tivemos a mesma sensibilidade ao lermos a obra de Clarice.

A invisibilidade de Macabéa é ponto alto, tanto no livro como no filme. Sua pureza, simplicidade e seus nada convencionais modos de agir e ser, encantam quem está assistindo. O filme é estrelado por Marcélia Cartaxo, no papel principal, José Dumont, interpretando Olímpico, Tamara Taxman, sendo a "coleguinha" Glória e Fernanda Montenegro, como Madame Carlota. Recebeu quatro prêmios, inclusive dois internacionais. 

No final do livreto, os organizadores da coleção nos apresentam mais alguns títulos que foram adaptados das obras de Lispector: Curtas: Ruído de passos (1995, Denise Gonçalves); Felicidade Clandestina (1998, Marcelo Gomes e Beto Normal); O ovo (2003, Nicole Algranti). Longa: Estrela nua (1985, José Antonio Garcia e Ícaro Martins). Filme: O corpo (1991, José Antonio Garcia).

Filme: A hora da estrela
Diretor: Suzana Amaral
Produtora: Raiz Produções
Tempo: 98 min
Ano: 1986



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dobradinha Book Music - Paulo Leminski


Paulo Leminski, poeta curitibano, sempre preferiu poemas breves, trocadilhos e brincadeiras no meio de suas obras. Além de poesias, Leminski escrevia músicas, traduzia, era professor e crítico literário. O poeta “cachorro louco”, como se auto-denominava, escreveu diversas obras que hoje encontram-se esgotadas, ou bem raras de ser encontradas.

Lendo esta reunião de poesias de Paulo Leminski (organizada por Fred Goes e Alvaro Marins, Global, 2002), deparei-me com duas que me trouxeram ótimas lembranças: Caprichos e Relaxos e Polonaise. Sim! Essas pequenas poesias passavam no Castelo Rá-Tim-Bum, quando o personagem Gato ia contar histórias às crianças do Castelo. Será que é com você assim, também? Escuta uma música, ou lê um poema aleatório e não liga a obra ao artista? Aconteceu comigo há um tempo. A música Fanatismo (que tem duas versões: 1 e 2) interpretada por Zeca Baleiro e Fagner, é uma poesia da portuguesa Florbela Espanca. Já havia lido duas obras da autora, mas não reparei. Além de Fanatismo, Fagner adaptou outras poesias de Florbela ao seu repertório. Particularmente, acho fantástico. É somente uma obra, mas ficam distintas quando escrita e audível.


Gostei bastante do estilo do autor. Confesso que não fiquei muito entusiasmada no começo. Quem pega pra ler primeira vez Leminski, deve ter em sua mente que ele não escreve como os outros poetas: poemas do fundo do coração e escrita ritmada. Achei o Cachorro Louco bem real. Bem humano. Não no sentido Adélia Prado, mas no sentido hum... Paulo Leminski! - Pois é, não encontrei ninguém para comparar. Humano com seus defeitos, falhas, cruezas e maldades que ninguém confessa.

Título: Paulo Leminski
Autor: Paulo Leminski (Organizadores: Fred Goes e Alvaro Marins)
Editora: Global
Páginas: 224