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sábado, 7 de junho de 2014

Dobradinha Book Cine- A hora da estrela


É engraçado quando encontramos algumas pessoas nas ruas e pensamos em uma história para sua vida, não é?! Sempre faço isso. É uma diversão à parte. E Clarice Lispector, com sua poesia refinada, romanceia este simples ato: o olhar o próximo com uma perspectiva e ideias, muitas ideias diferentes.

Em A hora da estrela (Rocco, 1998, 87 p.) a autora incorpora Rodrigo S. M. Relato. Um dia, o narrador depara-se com uma mulher que ao olhar no fundo de seus olhos, ele próprio já sabe que ela é nordestina, de Alagoas, tem 19 anos e é datilógrafa. A partir disso, ele cria uma história completa para Macabéa - este é seu nome. A personagem tem um quê de ser humano cru, que é quase impossível descrever em uma resenha. Ela é inocente, pura, tem medo de palavras, tem um rádio como seu amigo e professor de coisas banais. Sempre preparada para perguntas esdrúxulas, acaba conhecendo Olímpico de Jesus, operário de uma metalúrgica, que adorava se auto-denominar metalúrgico.

Em diversas partes do texto, Rodrigo Relato pára sua narrativa e conversa com o leitor: "
Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem de estilo, ela é ao deus-dará" (p. 36). Consciente de que sua história pode ser impossível - afinal foi só um encontro de olhares - nosso narrador descreve tão bem sua personagem principal, que é possível nutrir por ela sentimentos reais, como amor, ódio, tristeza, mas principalmente piedade.


Sou suspeita para falar desse livro. Vi algumas resenhas, denominando-o como um livro poético, e difícil. Estranhei bastante. Pra mim, é um dos livros mais fáceis - e nem por isso menos profundos - de Clarice. Ela escreve com tanta tranquilidade de descrições, que visualizamos Macabéa em nossa frente. Amo de paixão todas as descrições dadas. Rio demais com a nudez com que é escrito. É um livro indispensável para a vida.

Título: A hora da estrela

Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 87


Dobradinha - Filme A hora da estrela

Depois de ler o maravilhoso livro de Clarice Lispector, o Ivan me emprestou o filme A hora da estrela, dirigido por Suzana Amaral (Raiz Produções, 98 minutos, 1986). Há um tempo, a Folha de São Paulo lançou uma coleção nomeada Grandes livros no cinema, sendo este o quarto volume. O DVD é acompanhado de um livretinho, contendo uma pequena história do livro e de seu autor, e depoimentos de artistas que de alguma forma tiveram contato com a obra. E é bem interessante observar pontos que são citados no livreto; pontos dos quais não tivemos a mesma sensibilidade ao lermos a obra de Clarice.

A invisibilidade de Macabéa é ponto alto, tanto no livro como no filme. Sua pureza, simplicidade e seus nada convencionais modos de agir e ser, encantam quem está assistindo. O filme é estrelado por Marcélia Cartaxo, no papel principal, José Dumont, interpretando Olímpico, Tamara Taxman, sendo a "coleguinha" Glória e Fernanda Montenegro, como Madame Carlota. Recebeu quatro prêmios, inclusive dois internacionais. 

No final do livreto, os organizadores da coleção nos apresentam mais alguns títulos que foram adaptados das obras de Lispector: Curtas: Ruído de passos (1995, Denise Gonçalves); Felicidade Clandestina (1998, Marcelo Gomes e Beto Normal); O ovo (2003, Nicole Algranti). Longa: Estrela nua (1985, José Antonio Garcia e Ícaro Martins). Filme: O corpo (1991, José Antonio Garcia).

Filme: A hora da estrela
Diretor: Suzana Amaral
Produtora: Raiz Produções
Tempo: 98 min
Ano: 1986



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Resenha - Para sempre


De vez em quando dá vontade de ler algum bestseller não é?! Particularmente não gosto muito de ler o dito cujo quando ele está em seu auge. Sinto curiosidade, claro; afinal algo de muito bom deve ter dentro do livro para ele ser tão vendido. Quando Para sempre, de Kim e Krickitt Carpenter (Novo Conceito, 2012, 144 p.) estava nas primeiras estantes das livrarias, confesso que não me interessei. Primeiro, porque eu só o vi com a capa do filme, coisa que tira um pouco do meu encanto. E pensei: esse título, essa capa melosa... Deve ser chatinho. Mas mesmo com este sentimento, acabei fazendo uma troca no Skoob.

Mas vamos lá: Nós sempre pagamos com a língua. Kimmer e Krickitt se conheceram através do telefone. Hoje em dia muitos casais se conhecem pela internet. Mas naquela época - 1992 -, eles não tinham isso. Krickitt era telefonista de uma loja que vendia artigos esportivos, e Kim era treinador de beisebol de uma Universidade no Novo México. Em uma das vezes que ligou para a loja, Krick o atendeu. Foi apenas isso que bastou para que Kimmer ficasse completamente apaixonado pela voz daquela mulher maravilhosa. Acabaram trocando telefones e durante o período em que se conheciam "de longe", também se enviavam cartas e fotos. Resolveram se encontrar pessoalmente. O encontro foi melhor do que os dois imaginavam. Em pouco tempo já estavam namorando e logo casados. Tudo bem rápido. Porém, nenhum dos dois estava preparado para o que viria a seguir: um acidente de carro, em que Kim ficou com sérios machucados na coluna; e onde Krickitt quase perdeu a vida.

Com uma linguagem um tanto leve (para tratar de um tema tão pesado) o casal escreve uma história muito bonita de fé, de amor verdadeiro e da tão – hoje escassa – confiança no matrimônio. É gostoso de ser lido. Chorei horrores. Mas um problema: fiquei um pouquinho entediada no último capítulo do livro (o que não é um spoiller, podem ficar tranquilos), sendo que a história em si já havia “acabado”. Quem leu (ou quem vai ler) talvez entenda o porquê.

Título: Para sempre

Autor: Kim e Krickitt Carpenter
Editora: Novo Conceito
Páginas: 144

sábado, 10 de maio de 2014

Resenha - 12 anos de escravidão


Mais do que uma confissão em lágrimas por um narrador estratégico, a narrativa em primeira pessoa de Solomon Northup nos estremece quando relata a violência do tráfico de escravos norte-americano.

Se os abusos cometidos pela escravidão já deixaram marcas na História, imaginem o que não aconteceria com um escravo traficado ilegalmente?

12 anos de escravidão, de Solomon Northup (Penguin/Companhia das Letras, 2014, 273 p.) retrata todo esse tempo em que o autor trabalhou compulsoriamente. Filho de pai ex-escravo, o protagonista foi enganado por dois sujeitos e acreditou, ingenuamente, que começaria uma brilhante carreira como violoncelista. Ledo engano. Na verdade, foi vendido e colocado à disposição de senhores interessados em financiar o tráfico ilegal de escravos nos Estados Unidos.

A partir disso, todo o enredo marca a sofrida trajetória do narrador-personagem na paisagem norte-americana. Apesar de se valer de uma linguagem um tanto densa na descrição minuciosa dos hábitos e costumes, como o funcionamento da lavoura de cana-de-açúcar e milho, o romance toca em uma questão profunda sobre o comportamento humano: o desconhecimento.

Mais do que proibir o direito à liberdade dos escravos e, em especial, do protagonista, o desconhecimento do futuro e a probabilidade remota de uma fuga bem sucedida para rever os filhos e a esposa se torna uma mola que impulsiona o protagonista a superar os maus tratos.

Passando por várias fazendas e seus modos de produzir e utilizar a mão-de-obra existente, a leitura vale pelas minúcias do cotidiano escravo, ressaltando suas amarguras e os pensamentos que pairavam sobre a mente dos participantes daquele sistema.

Embora não seja de uma leitura rápida, o texto do autor vale ser lido tanto pelo ponto de vista histórico, na moldagem do painel social do país na época, como pelo ponto de vista pessoal na qualidade do tom confessional que permeia o livro na densidade emocional dos relatos.

Título: 12 anos de escravidão

Autor: Solomon Northup
Editora: Penguin / Companhia das letras
Páginas: 273