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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dobradinha Book Music - Paulo Leminski


Paulo Leminski, poeta curitibano, sempre preferiu poemas breves, trocadilhos e brincadeiras no meio de suas obras. Além de poesias, Leminski escrevia músicas, traduzia, era professor e crítico literário. O poeta “cachorro louco”, como se auto-denominava, escreveu diversas obras que hoje encontram-se esgotadas, ou bem raras de ser encontradas.

Lendo esta reunião de poesias de Paulo Leminski (organizada por Fred Goes e Alvaro Marins, Global, 2002), deparei-me com duas que me trouxeram ótimas lembranças: Caprichos e Relaxos e Polonaise. Sim! Essas pequenas poesias passavam no Castelo Rá-Tim-Bum, quando o personagem Gato ia contar histórias às crianças do Castelo. Será que é com você assim, também? Escuta uma música, ou lê um poema aleatório e não liga a obra ao artista? Aconteceu comigo há um tempo. A música Fanatismo (que tem duas versões: 1 e 2) interpretada por Zeca Baleiro e Fagner, é uma poesia da portuguesa Florbela Espanca. Já havia lido duas obras da autora, mas não reparei. Além de Fanatismo, Fagner adaptou outras poesias de Florbela ao seu repertório. Particularmente, acho fantástico. É somente uma obra, mas ficam distintas quando escrita e audível.


Gostei bastante do estilo do autor. Confesso que não fiquei muito entusiasmada no começo. Quem pega pra ler primeira vez Leminski, deve ter em sua mente que ele não escreve como os outros poetas: poemas do fundo do coração e escrita ritmada. Achei o Cachorro Louco bem real. Bem humano. Não no sentido Adélia Prado, mas no sentido hum... Paulo Leminski! - Pois é, não encontrei ninguém para comparar. Humano com seus defeitos, falhas, cruezas e maldades que ninguém confessa.

Título: Paulo Leminski
Autor: Paulo Leminski (Organizadores: Fred Goes e Alvaro Marins)
Editora: Global
Páginas: 224


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Quase uma resenha - Pretérito Presente


Quando eu e o Ivan combinamos de fazer um blog juntos, fiquei com medo. Sério. Ele escreve muito bem. E eu fiquei pensando: Putz! Vou ser massacrada com suas resenhas haha Mas ele tem me ensinado tanta coisa sobre escrita, resenhas e gostos literários, que pronto. Esse medo já passou.

Aí a vida anda, o mundo dá voltas e eu me pego com o livro Pretérito Presente (Pax e Spes, 2003, 100 p.) nas mãos. Um livro de poesias, de um autor que nunca havia escutado. Penso: o que eu vou falar de um livro, de um cara, de uma escrita que não gostei? Vou lá colocar uma minúscula biografia do autor. E ficaria assim:


Ives Gandra é advogado, escritor e professor. Foi um dos primeiros brasileiros a ingressar no Opus Dei. Em seu livro Pretérito Presente (Pax e Spes, 2003, 100 p.), apresenta várias poesias - bem curtinhas - que, segundo ele, alguns foram escritos em uma hora cada (estes datados em 1961).


Não, né?! Quem está interessado em saber se o senhor é advogado, ou foi ingressante do Opus Dei? Provavelmente 0,05% da população. Bobagens à parte, vamos falar sobre o livro! Ele é dividido em três partes: Versos por uma hora; A capa de espaço em branco; Verso do Eu presente. Percebe-se em seus poemas um tom bem pessoal - e até mesmo emocional. Vários - vários mesmo - são dirigidos à esposa e aos filhos. Outros tem um quê religioso. A escrita é rebuscada.

Pra mim, existem livros de poesia e livro de poesias. O segundo tipo, livro de poesias, eu foco nas poesias em si: são aqueles livros realmente especiais, onde há vários escritos que podem até mesmo estar falando sobre um mesmo assunto – político, pessoal, emocional, mundano -, mas que o autor consegue expressar seus sentimentos com a real poesia: simples, pura. Acredito que Pretérito Presente se encaixe no primeiro: livros de poesia (onde foco os livros, isto é: um a mais, entre tantos). Num tom repetitivo e muito, muito pessoal, Gandra não conseguiu me agradar. É mais um livro que li e que, sinceramente, não acrescentou em nada em minha vida pessoal.

Título: Pretérito presente

Autor: Ives Gandra
Editora: Pax e Spes
Páginas: 100


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Resenha - Ora bolas


De todos os poetas que eu conheço, considero Mario Quintana o melhor. Não somente por suas poesias - que não são "somente" poesias -, mas por todas as histórias que já ouvi dele como pessoa. "Como se poeta não fosse pessoa", ele provavelmente me diria, se estivesse vivo. Oras Bolas: O humor de Mario Quintana (L&PM, 2011, 146 p.) é um livrinho pequeno, escrito, compilado e adaptado por Juarez Fonseca. Foi um livro que ficou entre os mais vendidos de não-ficção, em 1994, ficando atrás somente de Chatô, o rei do Brasil (de Fernando Morais).

As histórias são contadas como crônicas de alguém que conheceu bem de perto o humor de Quintana. Dependendo do dia, acordava com o humor áspero; em outros já vestia o humor poético. Mas sempre sem papas na língua. Como disse Juarez, seus encontros - não somente com políticos, pelo visto - eram hilariantes ou, dependendo do ponto de vista, constrangedores.

"Inflação  (p. 53)
Época do governo José Ribamar Sarney, inflação de 80% ao mês – para começar. Come seu pastel com cafezinho no balcão de uma lancheria da Rua da Praia, sentado em um desses bancos altos e desconfortáveis. Como todo mundo faz, tem as pernas trançadas nas pernas do banco. Na hora de pagar, ao tirar o dinheiro do bolso do paletó, uma nota cai no chão. Lá de cima o poeta a olha desconsolado e isso é o bastante para que um rapaz, sentado na mesa próxima, se abaixe, pegando a nota e alcançando-a a Quintana, que agradece:
– Muito obrigado! No tempo que eu levaria para desenroscar as pernas e descer deste
banco, o dinheiro já teria perdido metade do valor..."

Vejo que seus pensamentos eram tão filosóficos, que beiravam o infantil. Perguntas bobas, comentários tolos, que chegam à pureza da criança. Assim como demonstra em suas poesias, Quintana gostava do cotidiano, gostava do simples, e não era o maior adorador da fama. 

“'Sou a falta de assunto predileta das professoras de Português da Grande Porto Alegre', divertia-se." (p. 65).

Encontrei esta incrível - e rara - entrevista exibida à TV Educativa, nos anos 90. Mario afirma: "A poesia para mim é um instrumento de reconhecimento do meu mundo, do mundo dos outros, e talvez dos outros mundos". Estou ainda mais encantada com este senhorzinho, que no dia cinco de maio completou vinte anos de falecimento.

Título: Ora bolas: O humor de Mario Quintana
Autor: Juarez Fonseca
Editora: L&PM
Páginas: 146